Hoje redimo-me a isto e a mais nada. Consoante o sol se esvai e a lua não cessa de crescer, eu olho para as mãos e não vejo maior vontade do que a de escrever. Esta pureza dos dias que cresceram e que me deixam triste, febril e irretornavelmente lúcida, são a certeza concreta de que eu estou a mudar. Dizem-me, entre dentes, que choram a minha mudança, que tentam quebrá-la mas que, quando me vêm tão só e mentalmente longe, apercebem-se de que não há nada a fazer se não deixarem-se ver-me assim. Não sei que sentimento foi este que se aflorou no meu rosto, que se cravou no que eu sou, mas há algo que eu não consigo negar, eu estou longe de mim ontem e longe de mim amanhã. Como se fosse tudo uma linha, e o meu tudo fosse picotado. E hoje não me apetece papel, apetece-me o ruído dos meus ossos a estalarem enquanto teclo cada pedaço desta obscenidade.
Maria de Carvalho
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