23 de setembro de 2012
Eterno afogamento do que não se consegue dizer e fica, por entre cada maré, preso e ancorado bem lá na sua profundidade. Amordacei a alma e atraiçoei a calma, tremo quando menciono isto. A realidade de que me fiz amante é agora abstracta, e ressuscitam em mim as chuvas que me levaram ao inferno e ao culminar do meu nascimento e da minha origem. Mas nenhuma chuva é como aquela que outrora caiu em mim tão suave... E eu choro, não de dor nem de amargueza, mas na fé de que ele seja o retorno dessa chuva que cessou de aumentar e largou as armas à força e se deixou extinguir. Ai, que arrepios melindrosos se apoderam da minha fúria! Eu tenho tanto que mais me valia ter tão pouco! Esgarcei cada flor e cada planta do meu jardim e agora as minhas mãos estão feridas, sangram, ardem, queimam até à singela dor de sofrimento. Porque é que as coisas são assim? Porque é que eu não sou Fernando Pessoa e escrevo sobre as diferentes realidades que se penetram na minha galeria em vez de falar de vocês, seres inanimados que habitam o monstro do meu terror? Tomara eu ter força para desaparecer só e morrer só. Sou medíocre como o Domingo de chuva que se pôs em mim. Mas amo.
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