5 de janeiro de 2013

Já alguma vez olhaste em redor e sentiste que tudo o que pertencia ao teu piso térreo se tornou efervescente, ardente e doente? Com uma intensidade tão grande que parecia que te tinham levado até ao inferno sem nunca teres entendido como é que lá chegaste?
É complicado quando a noite padece dos seus problemas e o dia celebra os seus bens. As forças que te reuniam em paz somem-se e, num vibrar de segundos, encontras-te só e sem bases às quais te consigas agarrar. É assim que eu vejo a vida a correr. Como a nascente que cessou de dar água e a foz que deixou de aveludar o céu. Como o sofá que nunca mais te ensejou encostado à parede e as flores que se desbotaram com o viver dos anos. As uniões fragmentaram-se e o seu rumo perdeu-se.
Apercebi-me de que já nada pretende fazer sentido e que o que nós tentamos buscar nas coisas é só mais o alívio do que a certeza. E é preciso a calma porque o fim do mundo ainda não chegou mas vem atrasado, embora se veja quase tudo a ruir. Creio que talvez a melhor solução para todo este sofrer seria simplesmente abandonar o fantasma. A sua transparência é quase o cume e o enaltecimento da minha dor e isto é tudo porque eu não quero ver. Não quero ver o que está a acontecer, não quero tocar nas paredes e sentir que já não está nada lá, não quero abrir a porta e sentir que o trinco deixou de se fechar, não quero sair à rua e sentir que tudo me levou para onde eu não queria estar. Porque o fantasma matou-me a fé, porque já quase nada faz sentido.
Ai, que repugnância eu sinto perante a comparação e os tempos verbais. Quem os criou nunca pensou que fariam tão mal à paixão de outrem... O Homem nunca pensou que fariam tão mal à paixão de outrem.


Carmo

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